Mais de um ano após a morte de Reginaldo Antônio Ferreira Júnior, conhecido na cena da pichação como África Menor, o caso continua sem conclusão e ganhou um novo capítulo em Sorocaba. A principal testemunha da ocorrência afirmou à Polícia Civil que mentiu no primeiro depoimento depois de sofrer pressão de policiais militares que participaram da ação. A declaração foi feita durante uma acareação realizada na Delegacia de Homicídios da Deic, a pedido do Ministério Público de São Paulo, para esclarecer contradições entre os relatos sobre o que aconteceu na noite em que o artista de rua foi morto, em janeiro de 2025.
De acordo com esse novo depoimento, o motorista do carro em que Reginaldo estava contou que conhecia a vítima e que os dois haviam combinado de sair juntos naquela noite para fazer pichações em pontos abandonados da cidade. Segundo ele, ao perceberem a aproximação da polícia, entraram no veículo para deixar o local, mas acabaram perseguidos por viaturas. Ainda conforme a versão apresentada na acareação, Reginaldo teria descido do carro para tentar fugir a pé, enquanto o motorista foi retirado do veículo por um policial, agredido e imobilizado no chão. Pouco depois, ele disse ter ouvido vários disparos.
A testemunha relatou ainda que, logo após a ocorrência, policiais teriam orientado o que deveria ser dito em depoimento. Segundo ele, a versão apresentada inicialmente, de que teria encontrado Reginaldo por acaso e lhe dado apenas uma carona, não seria verdadeira, mas sim uma narrativa que lhe foi passada durante a abordagem. O motorista afirmou que repetiu essa história por estar sozinho e sem assistência jurídica naquele momento.
Já a versão oficial dos policiais envolvidos sustenta que Reginaldo reagiu à abordagem e atirou contra a equipe durante a fuga em uma área de mata. A ocorrência envolveu agentes do 14º Batalhão de Ações Especiais de Polícia, que, segundo o registro, usavam um fuzil calibre 7.62 e duas pistolas calibre .40. Nenhum deles portava câmera corporal. O boletim também aponta que uma pistola calibre .380 teria sido encontrada com a vítima, além de materiais que indicariam que ele e o amigo haviam saído para pichar naquela noite.
O inquérito chegou a ser concluído pela Polícia Civil em março de 2025, acolhendo a versão apresentada pelos PMs e tratando o caso como confronto. No entanto, o Ministério Público pediu novas diligências antes de qualquer desfecho definitivo. Entre as medidas solicitadas estão a busca por imagens de câmeras de segurança, a obtenção das gravações das chamadas feitas ao 190, a perícia complementar na arma atribuída a Reginaldo e esclarecimentos sobre o paradeiro do celular da vítima, que, segundo a família, desapareceu após a morte.
As perícias feitas até aqui levantaram pontos que aumentaram as dúvidas sobre a versão policial. Exames residuográficos não encontraram vestígios de disparo nas mãos ou nas roupas de Reginaldo, e também não foram localizadas impressões digitais na arma que teria sido usada por ele. Além disso, o laudo pericial mencionou a existência de apenas um cartucho encontrado na área de mata, o que também passou a integrar o conjunto de questionamentos em torno da dinâmica da ocorrência.
Diante das pendências, a Justiça determinou o retorno do inquérito à Polícia Civil para continuidade das investigações, com novo prazo para o cumprimento das diligências. Enquanto isso, a família de Reginaldo segue à espera de respostas sobre o que de fato aconteceu naquela noite. Em nota, tanto o Ministério Público quanto a Secretaria da Segurança Pública informaram que o caso continua em apuração e que ainda não há uma data definida para a conclusão das investigações.
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